O mágico das sapatilhas Repetto

Jean Mark Gaucher

Em 15 anos, Jean-Marc Gaucher fez da dança uma tendência e transformou as sapatilhas Repetto em um fenômeno global. Encontro com um homem de negócios visionário.

 Foi numa manhã nublada em Paris que estacionei minha Velib ao lado de um luxuoso prédio perto do parque Monceau. Parecia uma menina prestes a entrar no mundo encantado do ballet. Meu encontro era com Jean-Marc Gaucher, o presidente da Repetto. E conhecer a sede da Repetto, não é quase como um conto de fadas?

Numa espaço branco e luminoso, o cheiro de rosas perfuma o ambiente. Uma bela roupa de bailarina divide espaço com livros, revistas e publicações sobre a famosa marca de sapatos de dança.

Fui recebida por Sr. Gaucher, o homem de negócios atípico e visionário, que com determinação e paixão transformou Repetto, numa das marcas mais cobiçadas do mundo. Em um espaço que é uma réplica das boutique Repetto, rodeada por sapatilhas, bolsas e roupas, iniciamos a nossa entrevista:

JM Gaucher-001

  • Depois de Reebok, o Sr. transformou uma marca adormecida em um dos produtos mais desejados do mercado francês. Qual o segredo para a “reconstrução” de uma marca?

Eu sempre gostei de desafios. A marca sempre teve associada ao universo feminino e mágico da dança mas o produto estava esquecido e um pouco fora de moda. Quando eu assumi a empresa, tinha um objetivo – queria que ela se tornasse o “Rolls Royce” dos sapato de dança.

Então escrevi num pequeno papel 3 linhas bem claras dos objetivos da empresa:

  • Nos tornar uma marca mundial que desenvolve produtos exclusivos.
  • Jamais produzir cópias. Criar produtos de alta tecnologia para o universo da dança.
  • Nos tornar uma marca do universo do luxo.

Ainda hoje, 15 anos depois são essas 3 linhas que conduzem a diretriz da minha empresa. Todas as pessoas que trabalham comigo e todas as pessoas que entram hoje para a Repetto conhecem esses objetivos, que se tornaram a filosofia da empresa.

  • Em 1999 quando o Sr. assumiu a Repetto, a marca estava quase em colapso. Foi por isso que o Sr. decidiu começar pelo mercado estrangeiro?

Sim, este foi um dos motivos. E em viagem à Londres, vi um outdoor publicitário, onde Sony e Ericsson, duas marcas concorrentes na época, se associavam para criar um telefone. Nesse momento eu pensei – “essa é uma ideia magica” – e decidi recuperar a estratégia e propor um co-branding com o estilista Issey Miyake – ele que era o estilista em vogue do momento e que tinha um universo muito próximo da dança clássica.

Fiz uma proposta para que ele criasse as sapatilhas, nós fabricaríamos e ele distribuía em suas boutiques, que na época, eram extremamente bem posicionadas no mundo. Apenas com uma identificação “Yssey Miyake by Repetto”. E funcionou. Depois foi a vez de  Yohji Yamamoto em 2002, Comme des Garçons em 2004…Tudo que as marcas de hoje fazem, só que há 15 anos atrás…

  • Depois disso qual foi a estratégia?

Unir tradição e modernidade. A marca já possuía um histórico forte, não apenas na dança, mas também em sapatos de cidades, como a primeira sapatilha de cidade que foi criada especialmente para Brigitte Bardot usar no filme « Et Dieu créa la femme » em 1956. Também Serge Gainsbourg com seu modelo mítico « Zizi »… Meu objetivo era focar no know how da empresa, que era a dança usando a mais alta tecnologia disponível no momento.E para os produtos “da cidade” levar a graça, a feminilidade e a elegância das bailarinas.

 

  • Repetto hoje não é somente uma marca de sapatilhas de bale e de sapatos de cidade, mas também bolsas e recentemente perfume e prêt-à-porter. Porque a diversificação de produtos?

A diversificação de produtos faz parte do crescimento natural de uma empresa. Para lançar a linha de bolsas, eu acompanhei um tour com um grupo de bailarinas e vi que entre um ensaio e outro e mesmo dentro do ônibus, todas usavam suas bolsas como travesseiros…veio então a ideia de criar uma coleção de bolsas grandes, mas extremamente macias, que elas pudessem carregar todo seu “kit-dança” mas também usa-las como um pequeno « doudou » para descansar…

A renovação de produtos constante também é parte da estratégia. Você pode vir em nossas boutiques a cada dois meses, que sempre haverá novidades.

Ao contrário de outras marcas de luxo, decidi segmentar minhas coleções em seis em vez de duas ao ano, não só pelo desejo de novidade, mas também para suavizar a produção, ter mais controle sobre os estoques e, assim, ter mais controle geral do crescimento de nossa empresa.

Depois disso criar um perfume e uma linha de prêt-à-porter foi uma consequência natural… coisas diretamente ligadas ao universo ultra romântico e feminino da dança.

  •  Quais são os segredos de fabricação? O “made in France” é importante?

 A empresa tem um know-how único, a técnica chamada de costura inversa (para a montagem de sapatilhas de balé sem cola), desenvolvido em 1947 pela criadora da marca, Rose Repetto, para aliviar os pés de seu filho Roland Petit, um jovem dançarino… por isso a montagem das nossas sapatilhas é ainda hoje feita na forma original de fábrica em Saint-Médard, para os dançarinos de todo o mundo.

Em segundo lugar, made in France, é diretamente ligada ao luxo. E queremos nossa marca associada a estes valores. Todos os nossos sapatos e sapatilhas são feitos na França. Inclusive desde 2011, temos uma escola para formar profissionais as técnicas específicas de montagem dos sapatos Repetto. Para o prêt-à-porter, usamos também o made in France, mas algumas fabricantes de malha na Itália, tudo com o objetivo de manter a alta qualidade de nosso produtos.

 

  • Para o Sr. a dança continua sendo o foco principal.?

Desde sua criação, a Maison Repetto fabrica produtos destinados a dança: tutus, sapatilhas de ponta e meia ponta, collants… Hoje fabricamos sob medida para as mais célebres bailarinas do mundo – da Ópera de Paris, do Royal Ballet de Londres, do Bolchoï de Moscou e o San Francisco Ballet…

Repetto antes de tudo é uma marca de dança. E todos nosso produtos complementares são inspirados neste universo. É a identidade da marca.

 

  • Em 2007 para festejar os 60 anos de Repetto, o Sr. criou a Fundação       “Dança pela vida”, porque este projeto?

Com a fundação « Dança para a Vida » meu objetivo foi o de democratizar dança, facilitando o acesso para alunos desfavorecidos pelo mundo fornecendo o material necessário. Mostrar que um dançarino ou uma dançarina não é concebido apenas por uma estética perfeita, mas que ela é especialmente uma ferramenta de aprendizado de vida e de auto confiança. Hoje mantemos escolas em diversos lugares do mundo como Cuba, Haiti, África do Sul, Brasil, Uc rânia…Sou muito feliz por esse projeto.

  • O futuro de Repetto?

Fazer da marca um processo de transmissão… de durabilidade no mercado. Mas nunca se afastar de nossas estrelas.

Porque hoje em todas nossas boutiques mas especialmente na boutique Rue de La Paix em Paris, sempre recebemos muitas celebridades. Mas mesmo estas celebridades, ao ver uma pequena dançarina sair de uma cabine de prova e se olhar no espelho experimentado um roupa ou uma sapatilha de dança – param para observar a pequena dançarina- ela que é nossa celebridade – nossa verdadeira estrela.

JM Gaucher1-001

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *